Impactação de cerúmen: por que a remoção segura deve ser feita por um médico otorrinolaringologista

No final de 2025, a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) obteve, na Justiça Federal, uma tutela de urgência suspendendo a Resolução Administrativa nº 803/2025 do Conselho Federal de Fonoaudiologia, que autorizava fonoaudiólogos a realizar a remoção de cerúmen do meato acústico externo. A decisão reforça uma posição já defendida pela entidade médica: esse procedimento deve ser realizado por médico otorrinolaringologista.

Na prática clínica, essa distinção não é burocrática — ela tem relação direta com a segurança do paciente. O meato acústico externo é um canal estreito, com pele fina e sensível, que termina muito próximo à membrana timpânica. O cerúmen, por sua vez, cumpre uma função protetora natural: ele lubrifica o canal e ajuda a impedir a entrada de poeira, microrganismos e pequenos corpos estranhos. Na maioria das pessoas, o próprio mecanismo de mastigação e descamação da pele já promove a expulsão gradual da cera, sem necessidade de qualquer intervenção.

A limpeza ativa só costuma ser indicada quando há impactação de cerúmen — ou seja, quando o acúmulo é suficiente para causar sintomas como sensação de ouvido tampado, redução da audição, zumbido, coceira ou, em alguns casos, tontura. Fora dessas situações, tentar remover cera com cotonetes, grampos ou outros objetos costuma empurrar o cerúmen mais para dentro, compactando-o contra o tímpano, além de poder causar microlesões na pele do canal. As chamadas velas de ouvido (ear candling) também são desaconselhadas: não há evidência de que retirem cerúmen de forma eficaz, e existe risco real de queimadura na pele do canal ou no pavilhão auricular, além de obstrução por resíduos de cera derretida.

Quando a remoção é de fato necessária, o otorrinolaringologista dispõe de diferentes técnicas, escolhidas conforme as características do cerúmen e do canal auditivo de cada paciente: a curetagem, feita com instrumento específico sob visualização direta (muitas vezes com auxílio de microscópio ou otoscópio); a lavagem otológica, indicada para cerúmen mais amolecido; e a aspiração, utilizada especialmente em canais mais estreitos ou quando há suspeita de perfuração timpânica prévia, situação em que a lavagem é contraindicada. A escolha da técnica depende de uma avaliação otoscópica prévia — algo que não se resume a um passo mecânico, mas exige exame direto da anatomia do paciente.

Na minha experiência, observo que grande parte das lesões de canal e das perfurações timpânicas que atendo em consulta têm origem em tentativas de limpeza caseira ou em procedimentos realizados sem visualização adequada da membrana timpânica. Esse padrão é consistente com o que a própria decisão judicial buscou resguardar: a remoção de cerúmen, embora pareça um procedimento simples, exige conhecimento anatômico e treinamento específico para reconhecer variações e contraindicações antes de qualquer intervenção.

Se você sente o ouvido tampado, tem dificuldade para ouvir ou já tentou limpar o ouvido em casa e percebeu piora dos sintomas, o caminho mais seguro é passar por uma avaliação presencial com otorrinolaringologista, que poderá examinar o canal auditivo e indicar a conduta mais adequada para o seu caso.

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Não. O cerúmen é uma secreção natural que protege o canal auditivo contra poeira e microrganismos. Na maioria das pessoas, ele é eliminado de forma espontânea, sem necessidade de limpeza ativa. A presença de cera não indica falta de cuidado, e o uso de cotonetes para retirá-la costuma ter o efeito contrário ao desejado, empurrando o cerúmen mais para dentro do canal.

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Vale buscar avaliação quando há sintomas como sensação de ouvido tampado, diminuição da audição, zumbido, coceira persistente ou desconforto. Somente com o exame do canal auditivo é possível confirmar se há impactação de cerúmen e definir a técnica de remoção mais adequada.

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Esse tipo de conduta deve ser discutido com um médico antes de ser tentado, pois depende da integridade da membrana timpânica e de outras características individuais do canal auditivo. Sem avaliação prévia, há risco de reações na pele do canal ou de mascarar outros problemas que precisam ser diagnosticados durante o exame presencial.

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