Ronco: quando é só um incômodo e quando pode indicar apneia obstrutiva do sono
Recentemente, uma reportagem chamou atenção para os riscos do uso constante de fones de ouvido para a saúde auditiva, reforçando um alerta médico sobre o tema. Esse tipo de discussão é bem-vinda porque ajuda a colocar em pauta, de forma mais ampla, questões relacionadas à saúde otorrinolaringológica no dia a dia das pessoas — e um desses temas, muito comum nos consultórios, é o ronco.
O ronco é motivo frequente de consulta, seja pela queixa do próprio paciente, seja porque o parceiro ou parceira de quarto relata o incômodo. Mas nem todo ronco tem o mesmo significado clínico. Segundo diretriz publicada no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology (BJORL), elaborada em conjunto pela AMB e pelo CFM, a diferenciação entre ronco primário e apneia obstrutiva do sono (SAOS) passa pela avaliação combinada de sintomas — como apneia presenciada por terceiros, sensação de sufocamento noturno, sonolência excessiva durante o dia e cefaleia ao despertar — associados a instrumentos objetivos, como a Escala de Sonolência de Epworth (pontuação igual ou superior a 15) e o IMC (igual ou superior a 28 kg/m²), além do uso do Questionário de Berlim como ferramenta inicial de triagem.
Na prática, isso significa que o ronco isolado, sem outros sintomas associados, tende a ser classificado como ronco primário — um incômodo relevante para a qualidade do sono do casal, mas sem necessariamente configurar um quadro respiratório mais grave. Já quando o ronco vem acompanhado de pausas respiratórias percebidas por quem dorme ao lado, despertar com sensação de falta de ar, sonolência diurna significativa ou dores de cabeça matinais recorrentes, esse conjunto de sinais levanta a suspeita de SAOS e justifica investigação mais aprofundada.
Essa investigação, de acordo com a diretriz de referência da American Academy of Sleep Medicine (AASM), endossada pela World Sleep Society, tem como padrão de confirmação diagnóstica a polissonografia, exame que permite calcular o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) — métrica que orienta a classificação de gravidade do quadro e, consequentemente, as condutas terapêuticas possíveis.
Na minha experiência clínica, observo que muitos pacientes chegam ao consultório após anos convivendo com o ronco, tratando-o como uma questão apenas social ou estética do sono, sem associá-lo a repercussões metabólicas e cardiovasculares que a literatura já demonstrou estarem ligadas à SAOS não diagnosticada. Também noto que a presença de sonolência diurna costuma ser subestimada pelo próprio paciente, que a atribui a rotina cansativa ou estresse, quando na verdade pode estar relacionada à fragmentação do sono causada por eventos respiratórios noturnos.
Vale reforçar: nenhum questionário ou relato isolado substitui a avaliação clínica individualizada, e a presença de um ou outro sintoma não define, por si só, um diagnóstico de SAOS. Cada caso precisa ser analisado de forma própria, considerando o histórico completo do paciente. Se você ou alguém próximo ronca com frequência e percebe algum dos sinais de alerta descritos aqui, o caminho recomendado é buscar uma avaliação otorrinolaringológica presencial, que poderá indicar, se necessário, os exames complementares adequados.
Todo mundo que ronca tem apneia do sono? +
Não. O ronco pode ocorrer de forma isolada, sem outros sintomas, sendo classificado como ronco primário. A suspeita de apneia obstrutiva do sono surge quando o ronco se associa a sinais como pausas respiratórias presenciadas, sensação de sufocamento noturno, sonolência excessiva durante o dia ou dor de cabeça ao despertar.
Só a polissonografia confirma apneia do sono? +
Segundo as diretrizes de referência, a polissonografia é o exame padrão para confirmação diagnóstica, pois permite calcular o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH). Questionários e escalas de sonolência são úteis como triagem inicial, mas não substituem essa avaliação objetiva quando há suspeita clínica.
Perder peso resolve o ronco e a apneia do sono? +
O excesso de peso é um dos fatores associados à SAOS, e o IMC é um dos critérios avaliados nas diretrizes diagnósticas. No entanto, a relação entre peso, ronco e apneia é multifatorial, e cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional para definir a conduta mais adequada.
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